Vizinhança musical
Martha Medeiros
Um músico inglês está fazendo um barulho enorme. E não é um adolescente de guitarra em punho. É Paul McCartney ensaiando.
Os moradores de distrito de Tower Hamlets, em Londres, estão de cabelos em pé por causa de um músico que vem ensaiando diariamente seu novo show ali na vizinhança. Dizem que o barulho extrapola o limite aceitável de 92 decibéis e querem que o sujeito arranje outro lugar pra tocar. Alguma razão estes ingleses têm, já que, em geral, é mesmo uma chatice ficar ouvindo uma sonzeira quando tudo o que se quer é descansar na santa paz do lar. Por outro lado, eles poderiam ter um pouco de paciência e aproveitar a oportunidade com mais bom humor, já que o músico em questão não é um adolescente desafinado tomando suas primeiras lições de guitarra, e sim Paul McCartney.
Ao ser avisado que o ensaio era do ex-Beatle, um dos incomodados respondeu: “E daí? Ele não paga meus impostos, e se fosse eu fazendo todo este barulho, seria processado”. Certo, vizinho, Paul já pediu desculpas através de sua assessoria e está tratando de transferir sua parafernália para um local ermo. Ninguém é obrigado a gostar de rock’n’roll, mesmo quando o show é de graça.
Até onde sei, não há músicos no prédio onde moro, a não ser que tenham providenciado isolamento acústico. Há um rapaz aprendendo a tocar sax na rua de trás, pra onde dão as janelas dos quartos. Às vezes é maçante, mas quando penso que poderia ser bateria, relevo. E há um clube bem em frente ao meu edifício, mas eu já sabia disso antes de me mudar, o que me impede de dar chilique em dias de festa. Não havendo briga e gritaria, é até animado.
A vida da gente pode ser menos estressante se aceitarmos que não estamos sós no planeta.
Numa época muito remota, eu passava os finais de semana num apartamento localizado na rua Vicente da Fontoura, no prédio mais maluco que já conheci e que existe ainda. Quem passa pela frente só enxerga a porta do edifício. Ao entrar, um longo corredor conduz a uma espécie de jardim de inverno, com dois andares de apartamentos circundando-o: o térreo e mais um. Todas as janelas e portas dos apartamentos são voltadas para este vão que fica a céu aberto, como se estivéssemos numa espécie de anfiteatro.
A impressão que dava é que estávamos protegidos do mundo lá fora, não ouvíamos o motor dos carros nem de nada que viesse da rua. A única coisa que escutávamos era o piano de um dos moradores, que tocava suaves melodias sem que ninguém da “plateia” pensasse em fazer escândalo ou chamar a Brigada Militar. Desligávamos a tevê, abríamos a janela e deixávamos o ensaio solitário de Geraldo Flach preencher a noite.
O silêncio é um direito sagrado depois das 22 horas. Mas, dependendo do vizinho, torna-se também sagrado o direito ao encantamento.
Domingo, 23 de maio de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.